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quarta-feira, 17 de agosto de 2011

ela e eu

J'est un autre
O dia escurece, eu ainda na cama
E a vejo deixar meu pijama
No chão do meu quarto. Ela entra no banho
E eu, ainda deitada, me estranho...

Achei que estava aqui, mas me vejo ali...
No espelho meu olhar não me é familiar

Ela saiu com o meu documento
Quando me perdi em algum pensamento...
E quando meu telefone tocava,
Ela atendia, meu nome ela dava

Ela não sou eu... O que aconteceu?
No espelho meu olhar não me é familiar... 

Ela rompeu com o meu namorado
E eu nem sei o que ele fez de errado
Ela mudou minha casa e emprego
Eu não conheço o lugar em que chego

Ela me assustou... Ela me salvou?
No espelho meu olhar não me é familiar...

Ah, meldelz, não acredito!
Eu nunca estive assim, tão longe de mim...
Ah, meldelz, não acredito!
Como eu posso ser sem estar em mim?

terça-feira, 12 de julho de 2011

outra madrugada

A madrugada é muito quieta, é muito escura... Assusta a quem tem medo de ficar sozinho. Mas é questão de costume: os olhos e os ouvidos logo se adaptam à falta de luz e sons. E então, a gente passa a escutar e a enxergar de forma bem mais apurada. Parece que na madrugada a gente tem mais tempo pra pensar, como se a vida corresse mais devagar... 
* * *
Amor, fala pra mim, quem é você. Fala quem você pensa que eu sou. Fala o que você acha que pode, no meio de toda essa bagunça que se faz no encontro de dois ou mais mundos... Fala pra mim, mas sem usar uma palavra sequer, que as palavras só nos induziram ao erro até aqui. 
* * * 
A gente vê as pessoas envelhecendo, tomando lugar perene na vida adulta, se cansando... Elas não têm mais tempo pra nada, mas ainda amam umas às outras... Esse é o tipo de processo que não há como conter, por mais que se veja acontecer - ainda quando se vê... 
* * * 
Não tenho medo de ficar sem dinheiro, de ficar sozinha, de ficar triste... Não tenho medo e nem vontade tampouco... Acho que estou melhor agora do que na maior parte da minha vida. Há pouco tempo atrás eu achava que tinha uma vida perfeita. Melhorou, mudou tudo... Mas não acho mais nada de perfeito agora... 
* * *
Há noites de calor, há noites nocivas... Amor, espero estar ao teu lado quando o frio da madrugada chegar à tua cama. Não fica sozinho não, vem pra mim, amor... Aqui você estará seguro - embora eu não saiba por quanto tempo.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

alt+f4

Chovia, estava frio.
O café com creme esfriava no canto da mesa.
O cachorro se esticava e latia aos seus pés.
Cheirava a pão queimado e asfalto molhado aquele ar.
Limpava a caixa de email. Leu o de uma ex muito linda e também muito cansativa. Bipolar, borderline, sabia lá... Quase lhe acabou com a vida! Nem sabia como havia conseguido se livrar. Leu uma dispensa de serviço pela qual entrou numa dívida aterradora. Leu a pseudo-alegre notícia de que a filha estava grávida. Leu a malvadinha criatividade dos profissionais do spam. Leu a apaixonada mensagem da namorada, enviada num dia em que ela ia pra cama com outro, como veio a saber mais tarde. Leu o deferimento do trancamento da pós.
DELETE. DELETE. DELETE. DELETE. DELETE. DELETE. DELETE.
Uma espreguiçada que lhe lembrou que precisava urgentemente de um bom shiatsu.
Cheirava a pão molhado e asfalto queimado aquele ar.
O cachorro se encolhia e resmungava em seu colo.
O café com creme estava bem frio no centro da mesa.
Então, ALT+F4, ALT+F4, ALT+F4.
Mas bom mesmo seria CTRL+Z e CTRL+Z e CTRL+Z em todo esse tempo que leu nos emails...
Chovia, estava frio.


sexta-feira, 5 de junho de 2009

brocha também é poesia

Um poeta de que gosto muito é o Manuel Bandeira. Pra falar a verdade, demorei um pouco pra entender a poesia dele: menos política, mais construção artística, ele escreve deforma artificiosa, fazendo com que tudo parecesse simples, feito cantiga de criança. Muita falta de pretensão pra um cara que fazia cálculos milimétricos.

 

Na realidade, comecei a me interessar de fato por essa poesia por causa de uma afinidade que eu tenho com o autor: a condição da impotência. Se o cara comia as mulheres ou não, eu não sei e nem me interesso muito por saber. Mas que ele era impotente, isso ela era. Não dá pra entender nada diferente em Pneumotórax: a vida que poderia ter sido e que não foi. Imagine que você se conteve ao máximo, sempre, temendo a morte que te foi anunciada aos 18 anos: você abandona o curso de arquitetura, não se casa, não bebe, não faz filho. E, ironia, imagine que, nessas, você foi morrer por volta dos 80. O Bandeira não queria saber de lirismo que não fosse libertação e, convenhamos, foi só aí mesmo que ele a encontro. De resto, preso em sua impotência.

 

Minha identificação com ele é essa: uma brocha menos física que metafísica.

 

Segue agora a transcrição de um poema que consta no livro O Mafuá do Malungo. Esse não é seu melhor livro e, entre os poemas que ali estão, também não escolhi o melhor. Mas é pouco conhecido e perfeito pra ilustrar o que eu disse.

 

Tema e voltas

 

Em brigas não tomo parte

E morros não subo não

Que se nunca tive enfarte,

Só tenho meio pulmão

 

No amor sim, tomo parte,

Mas não me esbaldo, isso não

Que se nunca tive enfarte,

Só tenho meio pulmão

 

De Eros a arriscada arte

Sempre usei com discrição

Que se nunca tive enfarte,

Só tenho meio pulmão

 

Bem que desejara amar-te

Sem medida nem razão

Mas qual! Se não tive enfarte,

Só tenho meio pulmão