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quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

paixão




Meu coração retumba:

Bumbo de carnaval,

O compasso do mais certo.

sábado, 4 de dezembro de 2010

unidade

Minh’alma estava naquele instante
Fora de mim longe muito longe

Chegaste
E desde logo foi Verão
O Verão com as suas palmas
os seus mormaços
os seus ventos de sôfrega mocidade
Debalde os teus afagos insinuavam quebranto e molície
O instinto de penetração já despertado
Era como uma seta de fogo

Foi então que min’alma veio vindo
Veio vindo de muito longe
Veio vindo
Para de súbito entrar-me violenta e sacudir-me todo
No momento fugaz da
unidade.

Manuel Bandeira

quarta-feira, 14 de julho de 2010

alt+f4

Chovia, estava frio.
O café com creme esfriava no canto da mesa.
O cachorro se esticava e latia aos seus pés.
Cheirava a pão queimado e asfalto molhado aquele ar.
Limpava a caixa de email. Leu o de uma ex muito linda e também muito cansativa. Bipolar, borderline, sabia lá... Quase lhe acabou com a vida! Nem sabia como havia conseguido se livrar. Leu uma dispensa de serviço pela qual entrou numa dívida aterradora. Leu a pseudo-alegre notícia de que a filha estava grávida. Leu a malvadinha criatividade dos profissionais do spam. Leu a apaixonada mensagem da namorada, enviada num dia em que ela ia pra cama com outro, como veio a saber mais tarde. Leu o deferimento do trancamento da pós.
DELETE. DELETE. DELETE. DELETE. DELETE. DELETE. DELETE.
Uma espreguiçada que lhe lembrou que precisava urgentemente de um bom shiatsu.
Cheirava a pão molhado e asfalto queimado aquele ar.
O cachorro se encolhia e resmungava em seu colo.
O café com creme estava bem frio no centro da mesa.
Então, ALT+F4, ALT+F4, ALT+F4.
Mas bom mesmo seria CTRL+Z e CTRL+Z e CTRL+Z em todo esse tempo que leu nos emails...
Chovia, estava frio.


terça-feira, 29 de junho de 2010

insônia


Insônia DEF. deficiência ou incapacidade de sonhar.


A insônia é insolente, chega e te devora. Te faz contar as horas, alonga e encurta o tempo. Torna qualquer bobagem razão de lamento. Te faz raivoso e bobo de insatisfação. A insônia é paciente quando te adora. Te faz errar a hora, mais veloz e lento. Torna o não sonho em sonho do seu desalento. Te faz fraco e baboso de estupefação. A insônia é incidente em rocha que chora. Te faz perder o agora e não sentir o vento. Torna qualquer loucura em pressentimento. Te faz perder o prumo, a paz e a razão...

quarta-feira, 12 de maio de 2010

vida que passa na marginal

...depois, esticou as pernas para evitar que os joelhos doessem – ontem ficaram doendo um pouco. Olhava para a tela branca do Word sem saber direito o que escrever e manteve a expressão facial por um tempo. Imaginou que a cara deveria estar um tanto risível, “cara de retardada”. Mas o que tinha? Estava mesmo ficando progressivamente mais burra, a cara seria apenas uma tradução da realidade. Ia completar o raciocínio mas notou que as unhas estavam por fazer; as da mão esquerda sempre cresciam menos que as da direita... Ou seria que se desgastavam mais rápido? “Vai saber...”

Ray Charles cantava: “dont let the sun get you crying...”. Não deixava mesmo, quase nunca chorava, não por nada, mas não andava com muitos motivos pra chorar... E nem pra rir tampouco. E nem pra escrever... Tinha motivos, isso sim, pra beber. Sim senhor, andava bebendo que era uma beleza! O problema era que precisava de cada vez mais bebida pra ficar bêbada, mas de cada vez menos bebida pra ficar de ressaca. Quaisquer três cervejinhas já deixavam-na bodeada no dia seguinte, pensando que queria ter nascido com um fígado de Wolverine. Foda! Vidinha mais ou menos.

Os pés estavam gelados dentro dos sapatos de salto que pisavam displicentemente no chão encardido do escritório. Seu trabalho naquele dia estava tranqüilo... Mas mesmo quando não estava, não exigia grandes coisas. O esforço máximo que tinha de fazer era ter paciência – muita paciência às vezes. Demorou, mas acabou aprendendo a ser uma boa subordinada. Estava mesmo ficando progressivamente mais burra, a subordinação seria apenas uma tradução da realidade. Estava, em contrapartida, ficando meio malcriada, lingüinha afiada, discutindo no trânsito... Lembrou-se de que lhe haviam dito que as pessoas ficam conformadas com o passar do tempo... “Sei... conformadas consigo e inconformadas com o outro, se for... Tsc!” A tarde chegava, a fome chegava... Não iria a restaurante nenhum. Cozinhava magnanimamente melhor que qualquer chapeirinho dos quilos da vida. Aliás, era o que gostava de fazer atualmente, vinha se tornando uma eximia cozinheira. Era impressionante o quanto berinjelas e tomates entendiam o que ela queria deles – muito mais do que as pessoas. Nossa, mas como é que se chegava a esse ponto: ter um pensamento desses? Nem ela mesma sabia. O que lhe parecia mais grave era isso: não ter clara na cabeça toda a trajetória de seu pensamento até aqui. Perdeu coisa no caminho, coisa importante e que hoje já não tem muito significado – a adolescência tudo é tão importante... Hoje em dia, importava só o trivial não sair dos eixo. Estava mesmo ficando progressivamente mais burra, o não-importar-se seria apenas uma tradução da realidade. Olhou pela janela: passou o trem... passaram vários carros... passou outro trem (esse em direção contrária)... pousou um urubu no fio... pousou o sol no rio... O cheiro de esgoto do rio empesteou a sala, mas tudo bem, era hora de ir. Dia de rodízio, iria de busão. “Saco!”: odiava a marginal. 

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Como ser um cafajeste

Texto do Sr. XXX


Parte 1

Ouviu-a falar alguma coisa antes de ligar o chuveiro. Não entendeu o que era e também não importava. A conhecia havia coisa de um ano, nunca teve paciência pra conversar por muito tempo e provavelmente não teria agora. Não eram 10 horas e a manhã seria longa. Preferia a idéia que fazia dela ontem: um vestidinho curto cujo conteúdo encontrava-se convenientemente carente...

Terminara com o namorado dias antes e estava muito mais receptiva que de costume. O ex tinha deixado as coisas dela numa sacola velha pra buscar na tarde anterior, o que garantiu um saudável descenso em seu ego (em situações normais insuportavelmente elevado). A despeito dos contorcionismos faciais que fazia enquanto ela contava, entendia perfeitamente o cara. Menos por solidariedade de gênero e mais por ela ser quem era. Do tipo que colocava as próprias fotos de fio dental no facebook (com tags personalizadas).

Ele bebeu descontroladamente aquela noite, antes dela aparecer. Primeiro porque a festa estava uma merda, e segundo porque parecia que ia piorar. Quando ela ignorou os amigos e foi direto cumprimentá-lo, entendeu imediatamente o que estava acontecendo e o que ia acontecer. Agora só precisava relaxar, tentar parecer sóbrio e deixar a hipocrisia fluir, como sempre...

Era um cara comum, não era bonito. Só tinha chance porque elevava o cinismo ao status de virtude. É claro que aquele tipo de coisa - de dizer exatamente o que as pessoas queriam ouvir - falhava miseravelmente a longo prazo, ele sabia disso, tinha uma ex namorada pra comprovar e vinha tentando ser muito honesto desde então. Mas, merda! Era só um bêbado cheio de testosterona numa noite de rara sorte. E se você não puder justificar todo tipo de atitude cretina com o fato de ser só um bêbado cheio de testosterona numa noite de rara sorte, então não adiantava ter sorte e trocava a vodka por uma porra de uma schweppes.

...

Parte 2

Sentou no sofá e maquinou qual seria a melhor desculpa para mandá-la embora, mas mudou de idéia quando ela saiu do banheiro enrolada com a toalha apenas no cabelo. Pra falar a verdade, era óbvio que ela pensou na cena antes e fez de tudo pra parecer sedutora, mas não tinha a classe que julgava ter, exalava todo o sex appeal de uma garota propaganda de Cynar. Tudo bem, era mais do que suficiente pra uma manhã de domingo; ele não ia reencenar Instinto Selvagem, afinal.

- Pra que esse aquário? Você tinha peixe?

(Não. Eu precisava do aquário pra criar gado)

-Tinha, um Bits.

-Hmm ti fofo! Qual era o nome dele?

-Tem que dar nome pra peixe?

-Tem né! E cadê ele?

(escondido embaixo da cama!)

-Morreu.

-De que?

(bateu um papo contigo e perdeu a fé na humanidade)

-A faxineira disse que foi fome. Prefiro acreditar que foi solidão.

-Pode ser...e esse ap tem uma energia pesada né.

(Oh god! feng shui de boteco a essa hora da manhã?!)

-Ah eu não acho.

-Tem muito preto.

-Não gosto de coisa colorida.

-Compra outro?

-Outro apartamento?

-Outro betta. Deve ter no e-bay.

(claro, eles vão entregar enrolado no jornal bem ao estilo Godfather)

-Acho que não vai ter no e-bay.

-Menino tem de tudo no e-bay. Eu compro meu clemb lá.

-Clembuterol? Esse treco não é proibido?

-No e-bay tem de tudo.

-Esse troço é perigoso, moça. Tu fica uns 20 minutos numa taquicardia do cacete. Periga até sofrer uma parada cardíaca

-Ah, 20 minutos é pouquinho.

E sorriu. Cara, ela era linda. O cabelo, as tatuagens, o corpo, aquele sorriso. Tudo nela parecia perfeito. Vinte minutos não era pouco. Se ela pudesse passar 20 minutos sem dizer nenhuma estupidez, a pediria em casamento ali mesmo.

É claro que não passava de utopia. Agora por exemplo, os peixes a haviam feito se lembrar de uma cachorra que teve quando adolescente. A Loba. E ele se perguntou que tipo de gente chama uma cocker spaniel de Loba, e porque ele precisava ouvir aquilo. Mas não dizia nada, só sorria e fazia cara de quem se interessava imensamente por biografias caninas (da pet shop à roda da camionete).

XXX falar da desculpa pra ela ir embora e do taxi que não chegava nunca.

Enquanto esperava o elevador na volta, pensou na falsidade daquilo tudo.Ele não era exatamente um tipo belo e deveria se sentir agradecido pela oportunidade, mas desde que acordara fez todo tipo de anotação mental extremamente cruel sobre alguém que lhe tratava com absoluta (e imerecida) gentileza. E o que era ele, afinal? O que fazia dele melhor, mais capaz ou sequer mais inteligente que ela?

Não que se arrependesse de te-la despachado. Era insuportável (ao menos para ele) manter qualquer tipo de conversa com ela sóbrio e de ressaca. E ainda tinha o jogo no Morumbi dali a pouco, precisava sair cedo pra evitar transito.

XXX falar de consciência blábláblá

Talvez fosse o caso de procurar alguma dignidade no e-bay.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

frio

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Frio pra caralho, bem úmido, vento de cortar a pele. Era um saco se cortava a pele, mas era mais um saco ainda a quantidade insana de roupa sobreposta pra poder sair de casa. E guarda-chuva na bolsa: muito chato! Se usa, é ruim de carregar; se não usa, pesa na bolsa; se deixa em casa, chove (porque é sempre o que acontece quando se está de guarda-chuva) e aí... é caminhar molhado, triste e bem feio, feito filho de coruja. Essas nuvens frias, quando vêm pra São Paulo, não dissipam nunca mais. A ela, não lhe dava vontade de nada. Ia pensando agora que já estava sem sair havia duas semanas, porque o frio desanimava – devia ter puxado esse mau-humor-pra-frio do pai. Porra, estivera na frente da adega! Muita preguiça de comprar o cabernet chileno e agora não ia ter o que beber quando chegasse em casa. Aquele frio pedia uma tacinha! Pior era que o vinho estava numa promoção absurda. E era bom, era bom sim... Um motoboi vinha passando na esquina rente-rente... Fi-daputa! Eles sempre dão um jeito de barbarizar... Olha aí a merda! Só podia dar merda! Pagar motoboi por hora deveria ser proibido, isso era merda anunciada! O que acontecera agora não: já era merda manifesta! Lama na bota toda – ainda bem que era só a bota... Puta, meu! Mó promoção boa, tinha deixado passar... Cabecinha! Tava precisando cortar o banza... Mas então, dormiria como? Aí era ruim! Não, era melhor deixar o banza, mesmo correndo o risco de, por isso, esquecer o vinho... Mas que pensamentos eram aqueles? Que coisa mais junkie, quem ouvisse nem pensaria que era trabalhava, dava uma grana pra ajudar na criação do sobrinho, ia pegar o moleque na escola... Molequinho do caralho ele tava ficando! Esperto mais que todo na vida! Sim, criança era bacana sim... Poderia fazer um em algum dia de inspiração. Um pentelhinho pra cuidar, pra ficar junto todo dia, pra ensinar uns bagulhos... Sabia lá!, parecia muito bacana mesmo! Alguém pra amar antes mesmo de conhecer... Nossa, e a fechadura da porta do prédio emperrando de novo? Puta, prédio velho tinha lá umas desvantagens... Tudo bem, banheira era foda... Mas tinha umas compensações – nada vinha de graça na vida... Banheira lhe lembrava banho quente desejado naquela noite fria, que lhe lembrava de beber pra se aquecer, que lhe lembrava do cabernet em promoção, que lhe lembrava que não havia comprado nada... Puta vida, que vidinha mais ou menos... Dormiria sozinha aquela noite. Era bom sim, até que era bom. Dar uma desbaratinada, desligar o celular, aquelas coisas coisas... Dormiria vendo algum filme bobo. Refletindo densamente sobre sua circunstância existencial momentânea, chegou à inapelável conclusão de que não haver comprado o vinho naquela tarde havia sido um péssimo negócio... Frio da porra!



quarta-feira, 12 de agosto de 2009

sobre sonhos

Antes de concluir este capítulo, fui à janela indagar da noite por que razão os sonhos hão de ser assim tão tênues que se esgarçam ao menor abrir de olhos ou voltar de corpo, e não continuam mais. A noite não me respondeu logo. Estava deliciosamente bela, os morros palejavam de luar e o espaço morria de silêncio. Como eu insistisse,declarou-me que os sonhos já não pertencem à sua jurisdição. Quando eles moravam na ilha que Luciano lhes deu, onde ela tinha o seu palácio, e donde os fazia sair com suas caras de vária feição, dar-me-ia explicações possíveis. Mas os tempos mudaram tudo.
Os sonhos antigos foram aposentados, e os modernos moram no cérebro da pessoa. Estes, ainda que quisessem imitar os outros, não poderiam fazê-lo; a ilha dos sonhos, como a dos amores, como todas as ilhas de todos os mares, são agora objeto da ambição e da rivalidade da Europa e dos Estados Unidos.


Machado de Assis

terça-feira, 28 de julho de 2009

via de análise

Acordou cedinho, se arrumou, saiu. Foi logo fumando um cigarro pra ver se passava a tensão muscular chatinha, adquirida durante o sono. Teve um sonho estranho, de que não gostou muito e de cujos detalhes já estava se esquecendo (tinha de lembrar pra falar ao analista).

Mas que noitezinha mais besta. Noite besta sim! Precisava parar de beber tanto vinho. Precisava parar de deixar o telefone ligado durante a noite. Precisava se livrar do cachorro de uma vez por todas. Precisava parar de ir pra cama com o leonino do bairro acima – essa tinha sido incrível, acabou rebaixando o amigo colorido a leonino do bairro acima, tamanha era a falta de afinidade que passeava livremente pelo caso. Da última vez em que acordaram juntos, ele pôs a mesa de café da manhã e encheu de açúcar o suco de laranja... Depois de tantos meses, nem atentou ao fato de ela dispensar o açúcar até no café e foi melar justo o suco – e ela jamais adoçaria nada sem perguntar se devia antes... É o tipo da falta de atenção que dava um tédio imenso.

Mas tédio por tédio, qualquer caso ultimamente entediava. Pensava em dinâmica de relacionamentos e se perguntava: seria que pra não haver tédio teria de estar sempre começando? Que pra sentir emoção pulsar, devia começar um caso novo a cada mês, mudar de emprego, mudar de casa, mudar de cidade? "Vai saber... Vai saber..."

Caminhava bem, já tinha percorrido os dois quilômetros que separavam sua casa do consultório do psicanalista – tinha resolvido fazer análise de tanto ouvir que Freud explicava... Mas quando se sentava no divã, sempre se entediava ainda mais e, ao fim de cada sessão, acendia outro cigarro e concluía estar se tornando a cada dia mais blasé.

terça-feira, 21 de julho de 2009

cavalo na pista

Wild, wild horses, couldn't drag me away

 

Ela agora tá olhando pela janela, pra matar o tempo do horário de almoço, que ainda não acabou. Comeu creme de espinafre, que preparou sozinha, do jeitinho que o amante gostava, embora ele não fosse provar. Lembra com alguma saudade do beijo, da voz, do cheiro de perfume que ficou nos lençóis na última vez em que dormiram juntos. Pensa que na noite anterior não teve preguiça, apesar do cansaço, e tratou de todos os afazeres – quando deu por si, já passava da uma da madrugada. Pensa que acordou bem disposta, que não vinha sentindo muito sono ultimamente. Agora se lembrou do amante outra vez: ele em toda sua manha pra despertar. Na última vez em que estiveram juntos ela se atrasou vinte minutos no trabalho; ele reclamou que nunca podiam tomar o café tranqüilamente, como todo casal faz. Pensa que ele já deve estar voltado de mais uma das suas viagens. Essa noite, talvez na seguinte, ele telefona. Considera que escutá-lo falando aquelas coisas que não a interessavam nadinha era às vezes muito chato... Volta na boca o gosto de beijo dele: beijo bem molhado, macio, gostoso sem dúvida. Mais uma onda de desânimo: preguiça de dormir ao lado dele, mas é chato mandar o cara embora pra casa, no meio da noite... Conclui que, no fim das contas, gosta mais de sentir saudade dele que matar essa saudade às claras da noite. Olhando pela janela, vê um cavalo andando em plena marginal, quase um milagre urbano: "vai dar merda, com certeza". Fica se sentindo um pouco blasé... Olha o relógio, sente preguiça e torna a trabalhar, pensando que dormir sozinha realmente não era nada mau.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

"Dont believe in modern love..."

RT@thatafelix: vivemos um amor contemporâneo:

nossos pensamentos ligados por uma rede sem fio,

trocando kbps d amor o tempo td. @andrernica

O João sempre gostou de arte dramática. Uma vez ele foi assistir uma performance que andou causando certa comoção já em dois ou três países da América do Sul. Fantástica: um ator fazia um número representando uma Marilyn Monroe decadentista, completamente ensandecida. O artista era muito expressivo, criativo e deixava seu espírito bem marcado no que fazia. O João quis conhecê-lo na hora: era venezuelano e se chamava Juan – simetrias do destino...

Conversaram a noite toda, enquanto bebiam alguma coisa. O João ficou achando o Juan muito carismático e muito lindo. Na manhã seguinte, o João viu os sonhos do Juan totalmente espalhados nos seus travesseiros. Não houve então mais nada a fazer: apaixonar-se era tudo. E como tesão pouco era se graça, o Juan também se deixou levar.

Namoraram então, e o João não encontrou na vida namorado mais ciumento. Estava bem assim, era carente, gostava de um ciúme. Entre eles, tudo perfeito, o perigo foi a vida. Juan teve de voltar pra Venezuela por questão de trabalho. Tudo bem, reduziriam a saudade com a Internet – uebicam, eme ésse ene, iscáipie, orcute, essas coisas servem pra isso...

Começaram esse namoro experimental: quando um chegava em casa, já ligava o pe ce pra falar com o outro. Mas desencontros acontecem e o Juan começou a ficar desesperado e inseguro (pra não dizer puto da vida). Resolveram por isso a marcar horários certinhos, mas o acordo era que deviam necessariamente deixar a nete ligada sempre que estivessem em casa. Mas a mãe do João também morava longe e falava com o filho mais pela internete também, assim como uma porrada de amigos. E se o Juan estava onláine, monopolizava o João, de forma que ele não conseguia dar atenção pra ninguém mais. Um pouco chato... E como fazer pra não magoar o bofe? Não teve outro jeito: quando acessava o eme esse ene, começou a entrar ofiláine.

Foi curioso, ele chegou pra mim e disse: "Lia, acho que tou traindo o Juan... Com a minha mãe... Eu entro ofiláine, fico com ela e só deixo ele me ver quando eu já disse tudo o que eu tinha pra dizer... Tou me sentindo uma vaca!"

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Notas à crônica anterior

Bem, o erotismo não costuma da muita matérias pras minha crônicas, Não por qualquer outro motivo além desse: não sou boa nisso. Não sei escrever muito bem sobre sexo e paixões e coisa e tal... Aqui vocês podem encontrar coisa muito melhor. mas é que deu uma vontade de publicar essa aí... Eu a escrevi faz já algum tempo e, no dia, me agradou. No dia seguinte, já não... Loucura, né? Hahahaha! Mas é assim... Bem, tá aí...

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Foi primeiro uma bolha que saiu do buraco no chão.


O buraco foi cavado por uma obra, obra particular com crescimento exponencial na parte mais alta da maior cidade do país. Por ela foi aberto o buraco, que era fundo... Bastante fundo... Pracaralhamente fundo! Tanto que ficou sendo ele a Garganta de Sampa. E a Garganta gorfava, gorfava ininterruptamente. O gorfo era a água mais limpa, diretinho do lençol freático – o estômago de Sampa, por analogia.

No começo, foi bom. Os peões da obra (que o engenheiro gostava de chamar de colaboradores) aproveitavam o gorfo cristalino pra limpar os instrumentos de trabalho, partes de seus corpos, essas coisas. Achavam uma curtição ficar à beira da Garganta em dias de calor intenso.

Mas alguém deve ter se incomodado com a água (a água?) e veio um homem da prefeitura mandando multa na obra. O engenheiro, que tinha um problema pessoal com multas, mandou canalizar a água e jogá-la onde é lugar de gorfo: o esgoto. E a obra continuou multiplicando seus andares.

Acontece que a Garganta ficou ofendidíssima em ver seu fruto, aquela água mais purinha que a da sabesp, sendo conspurcado daquela maneira. Imagina só, deitá-lo na mesma tubulação por onde corre toda merda, toda sujeira, tudo quanto os homens não querem mais... Desfeiteada com tamanho desaforo, a Garganta dobrou o volume do gorfo e rebentou a pequena canalização: eis que um esguichinho varava a terra. O engenheiro revidou com um bom saco de cimento. Bobagem dele: as águas se calaram por dois dias e então o esguicho de outrora se fez um feixe d’água de nada menos que quarenta centímetros de diâmetro de dois metros de altura.

A comicidade do espetáculo já se escancarava. Os peões da obra – a essa altura, já em processo de embargo – só riam do engenheiro, que teve de pagar mais uma multa, essa tendo o triplo do valor da anterior. E nessa noite, enquanto o ótimo paulistano engenhava meios de culpabilizar seus colaboradores pelos maus humores da Garganta, ela se rebelou ainda mais numa verdadeira explosão de água.

A enxurrada tornou-se um rio que se ramificava por tudo quanto lhe parecia leito (as ruas, no caso) e transformou a Avenida Rebouças numa verdadeira corredeira, cuja foz foi o Rio Pinheiros. Foi uma água tão limpa que fez redimir cada gota de chuva ácida que já caiu sobre a cidade.

Acho que nem carece dizer que São Paulo simplesmente parou. E nesse dia, um político muito politicamente político sugeriu que, em vez de estado de calamidade pública, se decretasse feriado municipal. E assim foi.